Veio da virtual imensidãoComo quem sai dum sonho ao acordar.
Ofereceu-me a face, para a beijar,
Com o rubor feliz duma emoção.
Convidei-a prá minha refeição.
E as velas sobre a mesa do jantar
Brilhavam no azul do seu olhar
Como estrelas no Céu duma ilusão.
O que comemos? Sei lá se comemos,
Que em profundos olhares nos perdemos
Como quem enlouquece a pouco e pouco.
Nem sei sequer se lhe falei de amor
Nesse meu derradeiro esplendor:
Última lucidez de quem está louco.
Sou o espanto
sou a dor
sou o desencanto.
No entanto,
tão serena
sou amor, só amor.
sou a dor
sou o desencanto.
No entanto,
tão serena
sou amor, só amor.
De mãos escassas nuas a flor frágil
renasce sem motivo senão vê-la
tardia nos caminhos
que até aqui me trouxeram, e a surpresa,
a nitidez dos colos tranquilos
onde as searas são o dia-a-dia
já maduras e a estrada que entre os campos
me leva desconheço hoje para onde
nem como nem porquê entre cidades
e plainos navegando e vendo as árvorese
o seu perfil exacto contra o céu.
Digo-me tanto aqui hei-de passar
que um dia o silêncio se abrirá
no rasto que existia na memória
e as lembranças se irão, morto estava
o desejo de flores e as mãos escassas
preparavam o seu fim
sem que a pena ou o medo as desviasse.
Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua, e permitiram
Que o mel de teus olhos me invadisse.
Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.
Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.
Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse numa praia uma menina.






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